Projeto Habitat: quando a arte abre portas para Belém
Projeto Habitat: quando a arte abre portas para Belém
Existem projetos que não nascem apenas de uma ideia. Nascem de um gesto. De uma porta aberta. De alguém dizendo: entre, veja de onde eu venho, veja o que me atravessa.
O Projeto Habitat, patrocinado pelo Itaú, realizado durante a Jaguar Parade Belém, foi exatamente isso: um convite íntimo, cotidiano e poderoso para entrar na casa, na rotina e no mundo interior da artista Bárbara Savannah, enquanto ela pintava sua onça Estrela do Norte.
E entrar na casa de uma artista da Amazônia significa, inevitavelmente, entrar também no seu território. Não o território geográfico apenas, mas o emocional, o simbólico, o que ela inventa e reinventa todos os dias nas telas, nos murais, na própria imaginação.
Sobre inventar paisagens (e se perder nelas)
Ao longo de um mini documentário de 8 minutos, Bárbara fala sobre a curiosa prática de inventar paisagens para depois se aprofundar nelas. Não sabe se isso vai acompanhá-la pela vida inteira, mas sabe que, por agora, é uma forma de respirar.
Essa invenção não é fantasia. É memória condensada, clima, cheiro de chuva, pedaços da tarde paraense colados em fragmentos de cor. São cenas que talvez nunca tenham acontecido exatamente como ela pinta, mas que dizem uma verdade emocional profunda sobre quem vive Belém.
Afinal, a Amazônia não se resume ao verde saturado que o imaginário externo repete. Bárbara experimenta outros neons, outros roxos, azuis do cair da noite, as cores que pertencem à cidade antes de pertencerem à floresta. Isso já diz muito sobre sua onça.
A onça como espelho e como mapa: Estrela do Norte
A obra Estrela do Norte nasce de três pontos de luz: as matas, o final de tarde e a noite paraense.
A onça carrega, no peito, o brilho incandescente desse Norte que queima, pulsa e não se apaga. Ela observa a noite chegando no horizonte com um olhar que reflete a primeira estrela, aquela que sempre aparece antes do resto do céu acompanhar.
É uma onça que nasce da contemplação. Mas também da reconciliação.
Belém, para Bárbara, sempre foi esse lugar de “estacionar e se encontrar”. Um lugar onde o pôr do sol no Jurunas, vivido com a família, é um momento de cuidado. Pintar essa onça, portanto, é também pintar uma espécie de lar em movimento.
Pertencimento
Há artistas que criam dentro da própria bolha. Bárbara faz o contrário: ela cria atravessada pela cidade. O estúdio importa, claro, mas o bairro importa tanto quanto.
Ela fala sobre como tudo entra na obra (mesmo que não literalmente no corpo da escultura): o gato que passa, a pessoa que grita na rua, o vento que muda, a chuva que chega e vai embora. É assim que ela constrói pertencimento: olhando para o que é construído e reconstruído todos os dias ao redor dela.
O Projeto Habitat, ao registrar esse cotidiano enquanto ela pintava sua onça, mostra algo fundamental: a arte não vem de um lugar idealizado. Ela vem do chão, do bairro, da vida real. E quando isso é filmado com verdade, a obra deixa de ser só escultura e passa a ser contexto.

Arte como conexão e devolutiva
Em um dos trechos mais bonitos, Bárbara explica que a arte a ajuda a conectar-se com as pessoas. Não é sobre transmitir uma mensagem pronta, é sobre entregar algo que elas precisam.
E as pessoas devolvem. Dizem que suas obras fazem lembrar memórias. Que trazem momentos de contemplação. Que silenciam. Que aquecem.
Nesse ponto, a onça esculpida deixa de ser apenas animal representado: vira ponte.
Porque quando alguém vê uma onça pintada no meio da cidade, um espaço urbano, concreto, acelerado, e se sente curioso, isso abre conversas que talvez nunca aconteceriam. Abre um diálogo com quem não necessariamente procuraria por esse tema, essa estética, essa causa.
Esse é um dos grandes poderes da Jaguar Parade: a arte vira convite para pensar numa espécie que, ironicamente, quase nunca vemos, mas que molda todo o equilíbrio da Amazônia e do que esperançamos para o futuro.
Assista ao documentário completo abaixo: